Home
O Grupo
Quem Somos
Nossa missão
Coordenadorias
Código de Ética
Projetos & Serviços
Palestras
Projeto Espelhos
Museu Visual da Homossexualidade
Personalidades Solidárias
Projeto Entrevistas
Manual para Imprensa
Guia do Voto Certo
Orientação Judicial
Participe
Reuniões
Voluntários
Colaboradores
Depoimentos - Vídeos
De parentes
De filhos
De amigos
De personalidades
De profissionais
Contribuições
Doações
Associados
Patrocínios
Defenda-se
Leis
Denúncias
Livro
Gravata Cor de Rosa
Imprensa
Releases Oficiais
Matérias na Mídia
Fotos 300 DPIs
Links
Artigos
Fale Conosco
 
Artigos

Do autor

10/04/2007
Construindo a homossexualidade “admissível”

          Na prateleira do imaginário popular os dogmas e tabus a granel, dispostos para consumo imediato: a bicha louca por pau, rasteira, mulherzinha vingativa rouba pinto de maridos, imitação caricata, mal educada, analfabeta e grotesca, Pit bicha, Vera Verão e outros esteriótipos que singularizam o ideário do perfil homossexual. Personagens bons de cuspir e feitos para apanhar, assim como os enredos de seus esquetes. Incorporando e deglutindo a miúde, tal qual o ritual da hóstia de beiju que os católicos ingerem dominicalmente como simbologia de nossa crença e aceitação de Cristo, reforçamos o aprendizado, decoramos a cartilha do grotesco. Na dúvida, vale o jargão comum destrutivo e assim vai se levando o preconceito na barrigada, criando o que a gente chama de cultura. São recorrentes os comentários que nos remetem a situações desconcertantes que invariavelmente exigem excelente desenvoltura dramatúrgica, invariavelmente representando o aterrorizante papel de judeu circuncidado acuado trocando de roupa no vestiário de educação física na escola preparatória de oficiais da Gestapo, sempre caprichando no sorriso forçado perante a piada de mau gosto ou um comentário desmoralizador ou até mesmo o célebre e corriqueiro comentário: -“Preferia que meu filho fosse bandido do que viado”. Sentimento rendido de oprimido, engolimos a seco a nossa resignação perante o fio da navalha do comentário agressivo e do amigo ou parente próximo. Em estado de sítio, seguimos anos a fio jogando roleta russa com nossa própria razão e a auto estima abalada, monstruosas criaturas por que não comemos buceta.

          Solitário como todo jovem, intencionava namorar, idealizava um relacionamento sólido, com toda a base moral, ética, envolta em cumplicidade e amor. Um romântico inexperiente como todo adolescente em busca de seu par, procurando as mesmas coisas que os demais jovens: carinho, pegar na mão, olhos nos olhos, beijar, assistir TV, pipoca, cinema, viagens, passeios, ter um lar, envelhecer juntos, e...sexo, muito sexo.  A trivialidade destes anseios gerava em mim forte inquietação e grande resistência em assimilar a retórica da opressão homofóbica. Nunca me senti de fato diferente. Nunca senti vergonha de querer amar um homem. Nunca senti vergonha de querer amar.  Ladeado pelas esquadrilhas de um tipo variante de ideologia sorrateira da bestialidade, nunca reconheci em mim a sua postulada diferença capital, sedenta por engolir todos os direitos instituídos de liberdade. Tanto quanto a homossexualidade pode ser inadmissível e repugnante para alguém, tanto quanto inadmissível e repugnante para eu entender porque devo me abster do mesmo projeto de vida tão corriqueiro, tão peculiar a nossa civilização, ao ser humano. Que crime de fato pode existir em amar alguém do mesmo sexo que procura em mim o complemento de razão de viver que procuro nele, meu parceiro? Não acreditava ser o único gay do planeta feliz com minha própria morfologia. Imaginava um mundo tranqüilo. Criava em minha fantasia um mundo a se construir, com outros tantos amigos solitários e solidários. Imaginava que os pares românticos dos grandes filmes norte americanos ou os protagonistas das novelas do horário nobre da Globo fossem gays,  irresistivelmente carismáticos, bem sucedidos, modelos de conduta ética e moral que sempre compartilhavam de um final feliz dando exemplos de um amor possível, sincero e arrebatador que arrancaria lágrimas das vovózinhas que mal se importariam com o fato de que eram homens.

          Idealizava um homem que juntos partilharíamos da felicidade conjugal a qual tinha traçado com o esmero de um estrategista de guerra ou um campeão de xadrez. Precisava ter toda uma série de requisitos para podermos passar incólume diante das trincheiras da sociedade. Com medo e influenciado por aquele ditame mal intencionado em forjar cidadãos em série, buscava a descrição de mim mesmo com todos os predicativos paranóicos que o pavor me aferia: deveria ser absolutamente masculino, idade próxima para não dar bandeira, nem um pouco efeminado, nem uma escorregadela sequer. Deveria nem sequer ter conhecidos que fossem gays “assumidos”, mesmo muito bem masculinos. Deveria jamais ter freqüentado, nem por curiosidade, boates, saunas ou qualquer ambiente de freqüência de gays, deveria ter sua vida sexual resguardada, sem ninguém saber de nada em hipótese alguma. Iríamos viver assim um grande e intenso amor durante anos, par incógnito e disfarçado sob a indubitável fachada de uma grande amizade, um lar de verdade e de verdades, uniformizados, com nosso enxoval de lençóis, cortinas e paletós padronizados em tecido de camuflagem de guerra. Admitia que todos poderiam desconfiar mas nunca de fato saber sobre a realidade daqueles dois machos a paisana.
 
          Decidi mexer meus pauzinhos (adolescente só pensa em mexer no pauzinho no mínimo duas vezes por dia, até se acabar cheio de espinhas) em busca de alguém para amar e coloquei um anúncio na seção de correio sentimental de um jornal de mercadorias usadas. Pode parecer um caminho esquisito para achar alguém para namorar mas naquela época não existia a facilidade imediata  da internet e suas salas de bate-papo instantâneas. Recebi algumas cartas e entre os poucos que condiziam com o perfil procurado conheci o Moacir, um gordo bonachão com doze anos a mais que eu. Meu primeiro relacionamento sério, meu primeiro namoro com quem travei meus primeiros relacionamentos sexuais maduros, a primeira oportunidade de manter um relacionamento emocional e sexual condigno. Moacir era um auxiliar administrativo de uma multinacional, um cara feliz que se esforçava administrar sua vida pacata e suas pequenas ambições. Um novo mundo de descobertas sexuais aliada a profunda carência juvenil elaborou o mecanismo traiçoeiro que ruía todo o traçado original do meu baile de máscaras: me apaixonei por Moacir, o reverso do perfil que estava procurando. Duro era segurar seu doce jeito meigo, infantil que invariavelmente davam aquela “pinta”. O mais difícil ainda era convence-lo a não vestir a calça de moletom rosa choque !! Não, Moacir não era o perfil de gay empacotado para consumo da tropa do eixo. Era de fato uma criança, um bebezão que esqueceu de crescer. Uma alma bonita que só quer o bem. Os doze anos a mais que os meus dezoito e nenhuma barreira na vida o impedia de ocultar sua sexualidade.  Seus amigos eram quase todos bem efeminados, algumas bem "monas" mesmo.  Não escondia sua preferência por homens a ninguém, nem o escritório e que trabalhava, amigos, ninguém. Conhecia o mundo gay, tinha uma certa vivência na noite mas era caseiro queria namoro sério. Moacir, você me fez sofrer, você me fez crescer nos sete anos que ficamos juntos. E assim a vida acontece. Interagimos com a vida e ela nos muda, guina, nos traz o conflito e a luz.

          Em diversas situações, num processo lento e demorado, fui cedendo, contrariadíssimo, a conhecer mais de perto o tal de “meio” gay, as “bichinhas” e outras variantes de estilos não tão convencionais ao padrão da sociedade. Foram muitas surpresas e a destruição de vários mitos da retórica homofascista. Antídoto tomado gole a gole, trazia o sabor amargo de nossa cultura.

          Com dezoito anos imaginava, convicto, parâmetros para viver uma homossexualidade admissível, sem sequer imaginar que estava cumprindo e colaborando com meus próprios opressores. Criava a homossexualidade ideal para todos que odeiam homossexuais: um homossexual, recluso, fechado, longe do espaço publico, existindo só para mim, longe de ser um “mal” exemplo aos olhos de quem impessoalmente e essencialmente me odeia pelo que represento. A margem, marginal.

          Abismado, recordo que estupidamente tinha muita raiva de outros homossexuais efeminados, afetados, por eles “corromperem” a imagem admissível de uma homossexualidade aceitável que presunçosamente construía escondido no escurinho de minha concha do mar. Não me imaginava nem se quer conversando com alguém que deixasse transparecer uma fresta ou cheiro de ser gay. Tal qual um vírus ideológico implantado em meus neurônios, replicava os padrões e anseios estabelecidos por vozes que não merecem respeito. Repassava o preconceito que sofria numa grotesca disvirtualização da realidade...desfocava minha indignação na vítima e não no agressor. A vida ensinaria que aos olhos dos estúpidos, viado executivo ou travesti do baixo meretrício estão todos na mesma cuia, são todas bichas desprezivelmente iguais. Aprendi, sentindo o sabor da exclusão que não são os gays efeminados que constroem uma homossexualidade feia e degradante. Degradante é a violência e o ódio atávico que ronda nossa sociedade incutindo a idéia de que somos cidadãos menores, piores, indignos.

Contato com o colaborador:
falecom@ricardoorsi.com.br

Dicas Importantes
Vote bem para mudar !

Para fazer uma lei ser aprovada precisamos ter muitos candidatos eleitos que defendam os nossos direitos.
Na próxima eleição, não desperdice seu voto.
Pesquise na seção Guia do Voto Certo quais são os candidatos que se compromotem em fazer valer os direitos dos cidadãos homossexuais.

Arquivos Restritos
Login:
Senha:
 
Notícias
Cadastre seu e-mail para receber Notícias sobre as atividades do Gravata Cor de Rosa:
 
 
 
Gravata Cor de Rosa - contato@gravatacorderosa.com.br - Tel: (11) 2886-4042 Conteúdo registrado. Livre distribuição desde que a fonte seja citada.
Desenvolvido por Net Fantasia