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Do autor

19/11/2008
O mito da promiscuidade homossexual.

         Foram longos e preciosos anos de convivência com o medo. Muitos anos para conseguir transpor as barreiras da minha vergonha e baixa estima e partilhar a verdadeira realidade sobre minha sexualidade com as pessoas que me eram mais próximas e importantes. Hoje com quarenta anos ainda vivencio a novidade de saborear a liberdade e poder conversar com meus melhores amigos heterossexuais abertamente sobre sexo e confidenciar meus acontecimentos cotidianos, angustias, felicidades e expectativas. Não que as pessoas mais próximas de fato não sabiam ou nunca tivessem imaginado. Eu sabia que elas sabiam. Apesar da falta de coragem em expressar verbalmente, substitui com atos e fatos a evidência de que eu era gay. 

          A dúvida pairava no ar somente para os olhares mais inocentes. O coquetel da opressão que corre em nossas veias de oprimido doutrinaram-nos a calar.  Imaginava-me suficientemente revolucionário em não adotar a postura de “enrustido” padrão. Talvez um mecanismo psicológico de compensação. Usei a estratégia em ser uma pessoa bem quista, agradável, fundir todo o carisma e educação que eu pudesse imantar para amortizar a suposta perda de pontos devido a realidade evidente de minha objetiva homossexualidade. Vivi como representando um personagem medroso e fictício de um filme de mudo, onde os gestos dizem mais que palavras. Um mundo preto e branco, a sensação de movimento alimentado pela ilusão do deslizar de vinte e quatro quadros por segundo. Foram longos anos para amadurecer a convicção de que quem ama não condiciona o amor a sua sexualidade.  No fundo sempre acreditei nessa máxima, mas quando você chega a uma certa idade onde as evidências ficam tão explícitas que você acaba tendo a evidente conclusão de quem esta ao lado não vai mais pular pra fora do barco mesmo com o jogo já as claras. Foi quando decidi ter um papo franco com as pessoas que mereciam toda a franqueza do mundo. Dentre as estimadas amizades que vingaram as barreiras do medo e da intolerância, trago em meu coração duas flores brancas da paz: Rodrigo e Alberto, meus irmãos.

          Durante os quinze anos que partilhamos a amizade iniciada anos atrás no último ano do colegial, mantivemos o hábito de nos reunirmos ao menos duas vezes por mês em nossa pizzaria predileta. Exercitarmos a alegre catarse de continuar sendo meninos brincalhões de escola, perpetuamos a doce mágica de sermos adolescentes, rimos, fazemos piadas. Falamos de nossas vidas também.

          Hoje consigo e posso falar dos acontecimentos mais importantes que eles estiveram ao lado mas sempre sem saber:  os três namorados que tive que eles conheceram e conviviam, mas não com o status oficial de namorados. Ouço as estórias deles também. Rodrigo com sua eterna namorada, Alberto que não conseguiu segurar o casamento, etc. Amigo é pra essas coisas. Exercitamos juntos os aprendizados da tolerância. É curioso que ultimamente e constantemente o assunto homossexualidade vem a baila de maneira espontânea e sem grilos. Me sinto abençoado de poder versar e saciar a curiosidade de um mundo tão longínquo a realidade deles. 

          -Mas Ricardo, todo gay em geral é promíscuo... ponderou Alberto, num papo descontraído após um saboroso pedaço de pizza de quatro queijos.

          Desarmado entre uma de calabreza e outra de atum, a priori respondi de improviso. Comecei inocentemente negando a mim mesmo a pecha de promíscuo. Promíscuo, eu? Bem que eu queria transar muito, mas muito mais do que o sexo que tenho hoje. Mais, qualitativamente e quantitativamente. Minhas fantasias sexuais até que são bem devassas, mas tenho tão pouco sexo, curto um tipo especifico de homens, um tipo especifico de sexo, tantas especificidades constituem o meu sexo aprendido, apreendido e apreensivo que me fazem um casto devasso. O acalento precede em refletir que nós, homens, somos todos assim: desde a adolescência emulamos em nossas infindáveis horas no banheiro todo o sexo que nos falta. Podem atirar a primeira pedra. Recorri também ao meu histórico de vida, três relacionamentos duradouros em busca de uma união monogâmica instável...passando em seguida para exemplos próximos de outros amigos e casais gays onde nunca encontrei nenhum caso extremo de sexopatia que fugisse dos padrões das taras de um adolescente heterossexual em busca de uma boa e cobiçada xoxota. O papo não foi muito além de uma prosa de curiosos, mas durante horas o dissabor do comentário corroeu meus sistemas de defesa até o apito que fez soar o alarme anti homofobia, em busca de uma resposta a esse conceito coletivizado automaticamente associado e estampado no meio da minha testa. Promíscuo. É uma promiscuidade intensa, além da promiscuidade possível praticada por um heterossexual. Sinto uma diferença semântica, ideológica, um neologismo cultural, diferente, densidade alta, imiscível, tem cor forte e cheiro de enxofre. Uma charada de mau gosto e fácil de desvendar.

          Durante a semana que se seguiu antes do reencontro semanal para novas e saborosas redondas, relembrei de dois casos que me fizeram crer que poderiam ser um eficaz exemplo para desenvolver minha argumentação de defesa. Em geral tenho péssima memória para acontecimentos corriqueiros da vida. Rodrigo é o meu exemplo reverso, eventualmente me recorda de viagens ou passagens engraçadas que vivenciamos há anos atrás que praticamente jamais voltariam a minha cabeça se não fossem estimuladas por sua memória brilhante. Ambos lembraram claramente do s dois inesquecíveis exemplos:

          Primeiro exemplo:

         Alberto concluiu seu curso de bacharelado em administração de empresas há quinze anos. Sua festa de formatura foi realizada numa manhã ensolarada de dezembro e essa festa eu jamais esquecerei. Para o grand finale de todos aqueles anos de dedicação aos estudos e agradecimentos aos pais, o comitê de organização da formatura dos três cursos de administração de empresas formandos naquele ano alugou para a ocasião uma grande chácara afastada alguns quilômetros da capital para um churrascada inesquecível de confraternização dos alunos, seus familiares e amigos. Um imóvel lindo, grandioso, com churrasqueiras enormes e campo de futebol profissional.  Crianças, irmãozinhos, pais, entes queridos comungando aquele que seria o derradeiro encontro de uma fase da vida que sempre trará recordações alegres do tempo de juventude e poucas responsabilidades. Lá estávamos eu e Rodrigo prestigiando a conquista de nosso querido amigão. Como praticamente não conhecíamos nenhum colega de classe do Alberto, ficamos admirando a uma certa distância o entusiasmo e o entrosamento daquela rapaziada cheia de vida e com um mundão cheio de desafios pela frente. Pegamos alguns espetinhos e fomos eu e Rodrigo a sentar num banco dentre centenas espalhados pela chácara, longe do murmurinho esfuziante da rapaziada. O canto que escolhemos nos fazia contemplar o magnífico gramado bem cuidado do campo de futebol profissional, atrás da casa onde eram servidos os comes e bebes. Que pena ninguém lembrou de trazer uma bola, poderíamos formar alguns times e poderia ser bem bacana, afinal a festa prometia durar o dia inteiro e ninguém estava com pressa mesmo. Mas a surpresa do dia ficou reservada a outro tipo de bate-bola. Saboreando uma linguiçinha bem temperada, fitando o nada, o verde do campo, a vida , o cenário... quando minha visão focou lá longe uma cena insólita, do outro lado do campo de futebol. Perguntei a Rodrigo se eu estava mesmo vendo aquilo ou poderia ser algum ácido lisérgico colocado sacanamente em nosso refrigerante como num clichê de filme de universitários traquinas norte-americanos. Bom dia, senhoras e senhores ! Estamos aqui reunidos para “cobrir” mais um jogão de bola entre eles e elas!!!  O apito soa o início da partida, começa o jogo !! A bola corre solta no gramado, os atletas entusiasmados e dispostos prometendo um jogaço inesquecível!  Bráulio recebe na intermediariaa!!! O centroavante segue com a bola, dispara pra cima da zaga, esta com fome, dribla um, dibla dois, o garoto esta impossível, avança decidido dentro da área, faz a finta, cavuca o pênalti, passa por mais um, mais dois zagueiros, defesa aberta, penetra a pequena área, dribla o goleiro já rendido...  e é GOOOOOOOOOLl!!!!!!!  Entra com bola e tudo!!!!!  As perninhas pra cima da menina e a bunda do estudante subindo e descendo! Como é que alguém poderia estar fudendo ali, a dois passos de uma multidão, daquele jeito tão descompromissado e irresponsável?? 

          Fomos rapidamente chamar o Alberto para saber se a performance fazia parte do programa oficial das comemorações ou se era uma dupla performática independente. Levou mais três minutos para a disputada churrasqueira perder o pódio da atração central do evento. Rapidamente se formou um grupo de umas cem pessoas pra lá de curiosas risonhas a fim de uma aproximação sorrateira em busca de camarotes privilegiados, quanto mais perto melhor. Frenesi coletivo. Evidente que queriam saber quem era o audacioso colega e a vagabunda que se prontificou a “dar” uma despedida tão inesquecível. Ainda ao longe só pude perceber que a performance acabou quando o casal percebeu de súbito a presença da enlouquecida platéia gritando bravo e pedindo bis. Mais tarde perguntamos ao Alberto a conclusão da apuração dos fatos, que maluquice era aquela afinal, numa festa onde estavam pais de alunos e muitas crianças. Não me recordo nenhuma feição reprovatória no semblante de Alberto, apenas o entusiasmado relato regado a gargalhadas. Nada a se explicar. Foi o que foi. Foi o máximo, um fato invejável. O garanhão, um de seus colegas continuou a brindar o dia especial, macho exemplar, varão viril despreocupado e meritoso, como se nada de incomum houvesse ocorrido. A menina foi embora, talvez arrependida , talvez  metralhada pelos olhares reprovadores que sorrateiramente, em uníssono, lhe imputavam o estigma que iria eternamente lhe acompanhar até o ultimo minuto de sua vida como a “vagabunda do churrasco da formatura” . – Você lembra da Brenda Graziela? –Não... Brenda....??? – Aquela puta do churrasco da nossa formatura !!!! – Ahhhhhhhhhhhh, sei aquela vaca...!!!!!

          Alberto, muitos anos depois eu te pergunto: você é promiscuo? Todos os seus amigos, sua geração é assim acometida de exageros?  Seu amiguinho garanhão de faculdade é promiscuo? Não ouvi nenhum comentário, nada nem parecido com o enfoque do rapaz ou da menina serem promíscuos, por mais que o acontecimento confira a hipótese deles habitualmente terem ímpetos e devaneios sexuais dessa magnitude. Pois não ouvi nada que se parecesse nem ao menos com um lamento envergonhado pelo ato essencialmente descabido e absurdo para aquela reunião. Por que ninguém foi lá dar uns safanões ou ao menos repreender aquele aluno por não ter procurado uma moita descente pra transar com sua parceira? Por que ele continuou jogando ping-pong e sorrindo e divertindo-se durante o resto daquela tarde como se absolutamente nada houvesse acontecido?  Se ao invés de um homem e uma mulher, ali estivessem dois homens você pode imaginar o que iria acontecer ao casal? Posso te resumir em quatro palavras: indignação, agressão, polícia e banimento. Pelo menos meia dúzia de bad boys musculosos indignados iriam descer o cacete nas bichas após um chilique histérico coletivo indignados com a indelével e vergonhosa mácula marcada num momento sagrado de alva comunhão familiar cercada por crianças e pais de família e tal acinte renderia um inquérito policial mediante a flagrante por atentado ao pudor, suficiente para uma boa dor de cabeça pras bichas malditas promíscuas e despudoradas. Teríamos também uma excelente justificativa para perpetuar uma máxima que em media metade da população ignorantemente repete por mero ódio, covardia e falta de informação: os gays são promíscuos. 

          Segundo exemplo:
 
         Recentemente, em outubro de 2002, o Brasil inteiro acompanhou pelos jornais, noticiários da televisão e nas principais revistas semanais um escândalo envolvendo universitários da conceituada GV, uma das mais tradicionais faculdades de administração de empresas do Brasil. Tudo aconteceu na tradicional festa anual conhecida por seus alunos como festa da Gioconda. O acontecimento deveria ser mais uma reunião universitária como qualquer outra, se não fosse uma sala intima disposta onde alguns casais de alunos enamorados descobriram na sala uma grande possibilidade para dar uma rapidinha. O que ninguém imaginava que a sala big brother continha a instalação de uma câmera de computador oculta documentando o desempenho sexual da rapaziada. Poucas horas mais tarde, as fotos foram dispostas na net para o delírio de milhares de internautas. Talvez os responsáveis que dispuseram essas fotos não imaginaram que a travessura iria tomar as proporções que tomaram, principalmente depois do alarde da mídia. Correu o mundo. Para não falar bobagem sobre o fato, cheguei a apurar os fatos pesquisando na internet, pois na ocasião me passaram despercebidos e pouco interessante. Encontrei um blog de uma participante da festinha com os magistral título de “Fiz sim, e daí?” Esbravejando, com razão, o direito de usar seu corpo sem culpa, isenta das rédeas da sociedade machista e denunciando o absurdo de ter sua privacidade exposta, submetida ao constrangimento do seu pai receber sua foto transando via e-mail, através dessas correntes de e-mails que voam entre amigos quando acontece um acontecimento curioso e excitante que vira um frenesi, a bola da vez.

          O que podemos extrair de exemplos e conclusões desse acontecimento? O que o leitor pode concluir somando os dois relatos? Podemos tomar esse exemplo para concluir que a juventude e a sociedade esta perdida num mundo de sexo desenfreado e bestial? Juventude promíscua? Estamos falando de uma juventude inconseqüente, sem exceção? A massificação sem limites para a insensatez? A partir desses relatos todos os pais deveriam imaginar que sua filha universitária esta indo para o curso superior de putaria? Não, Alberto, você não deve ter nem pensado na palavra promiscuidade quando viu a matéria na TV, por que lá, como no exemplo anterior, não havia a participação de nenhum gay... pense bem na engendrada carga de cultura sexual que você aprendeu no decorrer de toda a sua vida...deve ter pensado que gostaria de estar lá, não é? Se achou que aquela sacanagem toda foi um ato vergonhoso ou de alguma forma negativo aos seus critérios, quando muito pensou que os alunos taradinhos deveriam ter escolhido outra hora e lugar pra esse tipo de coisa...

          Eu entendo Alberto, sob a mesma situação, dois olhares, duas leituras diferentes: os gays são nojentos e promíscuos, uma raiva repulsiva e indignação enervante. Os demais (quando muito) são inconseqüentes e descuidados...o sorriso maroto de desaprovação mas  cúmplice, hormonalmente compreensível que inconscientemente o estimula a visitar seu mundo sexual particular das suas fantasias sexuais guardadas no fundo de sua gaveta mais inacessível, onde você sabe que ninguém mexe, só você, com a porta trancada. Reação tal qual um pré-adolescente, folheando nervosamente às escondidas a revista Playboy do papai que a mamãe sempre proibiu de ver: sabe que é proibido mas acha tudo maravilhoso. Você se vê, se encontra naquelas fantasias e essa identificação inconsciente não te permite julga-los, se julgar. Ali, não existe um outro, um interlocutor e réu. Não existe um corpo, uma entidade, uma minoria ou uma classificação qualquer de agrupamentos sociais de pessoas para seu ávido julgamento.

          Não eram gays “promíscuos”, não eram negros para proferir que “se não cagam na entrada cagam na saída”, não eram judeus “avarentos pois não queriam gastar” com motel, era apenas um espelho de seu escaninho social.  

          Os dois exemplos coincidentemente ocorridos em ambientes universitários. O seio da elite brasileira, onde o ingresso invariavelmente é transposto apenas por indivíduos com a sorte de contarem com a estrutura financeira familiar estabilizada para sustentar os altos custos do terceiro grau. Em geral filhos de pais bem estabilizados, com acesso a cultura, viagens, boas escolas e renda alta acima dos padrões brasileiros. Sem margens para justificar a falta de berço, a falta de educação, a falta de dinheiro para um hotelzinho barato de beira de estrada.

          Em última análise, a quem cabe definir o padrão sexual a se cumprir? O resultado de nosso dialogo com nossos próprios desejos ou os ditames da cartilha da Vovó Maricota? Ao papa? Maomé? Buda? Chaplin? Kama Sutra? Penélope Charmosa? Luz del Fuego? Ser promíscuo ou não, ter a liberdade de transar com centenas de pessoas cabe ao livre arbítrio de cada cabeça e não sinto pertinência julgar heterossexuais nem gays se está correto ou não transar com quantos parceiros seus ímpetos sexuais permitir, por mais que ao julgo de nossos critérios possa parecer inapropriado ou insano. Fiquemos atentos para a generalização. A associação de tudo que é degenerado como sendo natural ao comportamento de todos os homossexuais é uma covardia vil, conveniência sutil, forjada e sedimentada sob a pressão do preconceito e da discriminação. 

         

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