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Do autor

10/06/2007
O orfão e o juízo final.

          Agora vamos ao conto de fadas ao avesso. De doer. O caso da morte de um filho. A estória de uma execução, de uma solução final, legal por direito, sentença de bastidor, doméstica, desvinculada e distante dos meandros do código penal e civil, resolução de cume familiar, decisão varrida nos bastidores domésticos e varridas para debaixo do tapete, enterrada na cova do quintal de casa, protegida pela legislação vigente. No local do crime, não há sangue, cartuchos de balas. Externamente, não se vêem perfurações, hematomas, contusões, nenhum ferimento visível. Internamente, não há vestígios de envenenamento, disfunção cardíaca, insuficiência renal, septicemia, câncer. Não há legista no mundo que possa descobrir a causa mortis no corpo daquele ex- filho. Não há depoimento, testemunhas, não há inquérito aberto, processo algum. Os estragos na alma de meu novo amigo Alex e a justiça para a sua cruel execução vão ficar arquivados, restritos ao acesso da memória daquela família e agora como exemplo anônimo nessas páginas.

          O dossiê completo, a verdade, soube por intermédio do relato do meu amigo, filho morto e garanto que não foi através da psicografia de nenhum médium. Ouvi de sua própria boca em comovido depoimento de como morreu para sua família. Foi ideologicamente assassinado. Banido, excluído, expulso, morto pela intolerância de seu pai, por ele ser homossexual. Causa mortis: homofobia. A morte não matada.  Assim morreu um filho. Assim morreu o amor de um pai.
 
          Alex é vizinho de um grande amigo e certa noite fomos apresentados. Foi o início de uma grande amizade. Alex tem 26 anos, é inteligente, versado, amistoso e alegra qualquer ambiente que participa com seu bom humor. Em nosso papo informal, Alex traçou um breve perfil de seus pais, sua situação privilegiada, morando em uma das melhores regiões da cidade de São Paulo. No desenrolar de nossa amizade, trocando nossas experiências de vida, jogando conversa fora, Alex sentiu-se a vontade para compartilhar uma triste passagem de sua vida. 

          Disse que em determinado momento de sua juventude, há três anos atrás, sentiu a necessidade de compartilhar com seu pai o seu segredo, contar sobre o que considerava ser apenas uma nuance importante de sua personalidade. Achava que se assim o fizesse seria o caminho mais honesto. Detestaria que seu pai soubesse através do comentário destorcido e maldoso de outrem.  Relembrou que a conduta de seu pai era cordial e indistinta perante aos colegas de trabalho, independente de raça, credo ou sexualidade.  O pai sempre proferiu comentários que o motivaram a tomar a importante decisão. Comentários sobre alguns de seus auxiliares, gays. Não se importava com o que cada qual fizesse na cama ou com quem fizesse, uma vez que cumpriam satisfatoriamente suas obrigações. Um senso de profissionalismo absoluto, exigia neutralidade e seriedade de seus subordinados em seu gabinete.


          Espantosa a profissão do réu, sua Excelência, caixa-eletrônico na emissão de sentenças imediatas, compilações de memórias neuro-mecânicas de códigos de leis, júris-imprudência a serviço da sociedade. Sempre imagino a formação de Magistrados e o seu exercício sob o manto individual de um caráter humanístico e equilíbrio emocional. Pobre utopia. Há sempre o joio e o trigo em todos os recôncavos do mundo, em qualquer atividade humana, em qualquer agrupamento social mesmo nos mais insuspeitos. Há quem ainda se engane em imaginar que o retrato da intolerância e estupidez seja correlacionado a uma estrutura familiar de poucos recursos, baixa escolaridade, sem oportunidade de bons estudos, acesso a bons livros e a informação. 


          Alex contou que sua relação com o pai era saudável, seu pai sempre o amou, sempre o tratou tão bem, tinha de tudo de bom e de melhor. Tinha a admiração do pai e contava com seu apoio e amizade supostamente incondicional. Tinha o beijo, o abraço, a cultura, a amizade e a benção. Até acreditou no comentário cúmplice e solidário, no qual assegurava que seu filho poderia sempre contar com seu ombro amigo, aconteça o que acontecer, ele estaria sempre ao seu lado para escuta-lo. Por vários dias ensaiou, elaborou em sua mente diversos roteiros na intenção de amenizar a carga de stress do impacto de sua bem intencionada transparência. Não queria magoar o pai, essa nunca foi a intenção, não queria mais dor. Não se sentia um fora da lei, não aceitava qualquer associação do sentimento de amor a natureza marginal, não admitia nenhum de seus sentimentos ou seu sexo enquadrados e sentenciados sob o mesmo vigor da lei atribuídos a crimes hediondos. No olho do furacão, não aceitava a pecha de monstruosa aberração sexual, principalmente aos olhos de seu pai, seu herói, o homem que sempre se preocupou com seus estudos, sua educação.


          Sentiu a necessidade do conforto e acalento do ombro prometido e foi ter com o pai sobre sua sexualidade. Imaginou que no cerne do lar encontraria o alento e abrigo seguro perante toda a opressão que sentia em suas costas por ser a imagem de uma conduta condenável, de estímulos externos agressivos. Sabia que não haveria tranqüilidade na abordagem de um assunto delicado dessa natureza, sabia da vida e sabia da dor da diferença. A reação, talvez esperasse a diretriz espiritual de um padre ou apenas um papo sério com seu grande amigo. Imaginou algumas lágrimas caindo, diluindo cores, borrando sonhos e projetos ideais. Talvez imaginou até uma tempestade de verão, um choro doído, uma inundação lavando as telas todas e a necessidade de recomeçar a traçar novos rabiscos... forte vento, chuva de granizo, algumas telhas quebradas e o sol voltaria a brilhar adiante. Tão pouco imaginou um sorriso largo, um tapinha nas costas e a benção imaculada.


          E Alex assim o fez, contou. 


          O que definitivamente não imaginou foi o inimaginável. A realidade, a traumática seqüência de reações que se seguiriam. Não reconheceu o pai, ali não estava mais o seu amigo e confidente.  Em sua frente o mais frio inquisitor e algoz assassino. E foi aberta a primeira das três fases da audiência de seu julgamento.

Você encosta em pinto, Alex. Seu sexo desviado é de viado. Deve fazer coisas horrendas com seus buracos. Coloca a sua língua na língua de outro homem.

          Confunde seus braços no abraço forte de outros braços fortes. Confunde a alma de seu pai também, fraca. Deveria se envergonhar... por que não seguiu o exemplo de seu pai... o deixaria tão feliz. Ajuste o botão de sua sexualidade para a opção hetero. Sim, por que você não dá esse presente para o seu pai? Renegue o seu prazer, sua personalidade e faça uma perpétua homenagem a ele. Com o tempo se acostumará a viver infeliz mas ganhará a silhueta de um homem bendito!  Não seja egoísta Alex, ele só não tolera que você viva do jeito diferente do dele. Só isso. Case com uma mulher, não será tão difícil assim como imagina.

          Se um dia sua esposa descobrir que você nunca a amou e a usou como adereço de sua arquitetura familiar pré fabricada, tenha esse capítulo-homenagem a sua coragem, todinho seu!  Use e abuse ! Basta você tê-lo como apoio para melhor explanar para ela que a culpa mesmo é do seu pai. Explicaremos juntos que você foi um marido desonesto só para servir a obsessão de seu pai e da sociedade pela idéia de purismo sexual que eles aprenderam nas telenovelas e nos filmes românticos de Hollywood.


          O doutor inicialmente sentiu vergonha, muita vergonha. Não admitiu a verdade. Como poderia não ter identificado nenhum vestígio dos sinais que aprendera reconhecer na viadagem? Não podia ser, não via uma típica ...bicha....logo meu filho? Repetia sua inconformidade, como um susto sem reação a dor e prenúncio de um ferimento que não estancaria, do buraco que se tornaria uma hemorragia causada pelo nojo, o pânico e ódio que definitivamente faria seu filho esvair-se completamente de seu coração. Chocado e abalado se retirou, sem garrote e sem rumo.


          Finalizou a primeira parte da audiência. Não queria conversa, se retirou para entender a catástrofe que vivenciava, entender onde poderia ter errado, como poderia acontecer justo em sua família tamanha desgraça.

Talvez ponderasse tamanha injustiça que o destino lhe acometia. Preconceito, não tinha nenhum... sempre foi tão bom, reto exemplo de dignidade. Fiel representante da constituição, da ordem e da justiça de um povo de bom coração que acolheu sobre o mesmo chão a miscigenação das raças, a convivência pacífica entre os diversos credos e berço celeiro futuro da tolerância ...sempre foi tão cordial com os viados filhos dos outros...mas por que  justo na sua família?


          O asco o dominava. Era escravo de sua ótica, do medo de um mundo fantasmagórico e desconhecido. A mescla de um conto de fábula fantástica e da sua visão peculiar da realidade, habitado por personagens horrendos: imaginava seu filho tirando uma máscara de jovem bem comportado para surgir em seu lugar um personagem monstruoso e indecifrável, a fusão do alien, da Rogéria e Roberta Close, da Vera Verão dando chilique, do maníaco do parque, da bruxa malvada da Bela Adormecida, da anaconda de Adão e Eva e Osama Bin Laden. Um monstro travestido, armado com um trabuco enorme e dissimulando doenças, pecado e morte.


          Se seu anjo da guarda o aconselhou outros caminhos possíveis para um entendimento, um abraço de dor por um lamento de amor de pai e filho, ao compadecimento, não escutou. Estava em transe.


          Vislumbrou ainda a derradeira saída, uma única apelação circunstancial o absolveria de sua pena. Um voto de clemência, antes de proferir o veredicto, resolveu checar se existia a brecha, sanar a dúvida que seria decisiva, que poderia salvar seu filho da pena capital. Se ainda estivesse puro, livre do contato da peçonha de outros corpos doentios imundos, se ainda estivesse a margem de ser, a intenção de. Tudo dependeria de que fase estaria a doença maligna.

          Esperançoso, imaginou a reformulação de uma nova alma. Investiria o que fosse preciso para um novo ser, clone asséptico, higiênico e sintético daquele que não mais queria como filho. Pagaria os melhores psiquiatras, terapeutas, psicólogos, exorcistas e as mais lindas e doces putas para reintegra-lo a sociedade e recuperar a imagem que ele sempre viu em seu filho mas que de fato nunca existiu. Talvez tenha imaginado técnicas pavlovianas de indução comportamental, tratamento com choque, laranja mecânica.  Teve esperanças em resgata-lo do inferno particular de sua paranóia e deu andamento a abertura do segunda fase da audiência:


          Percorreu o corredor da morte em busca da informação.
 

          Acuado em seu quarto-cárcere, indagou a Alex se já tivera consumado alguma experiência sexual com outros homens.

Compromissado com a verdade, respondeu que sim, com seu namorado.


          E tudo terminou. Formulou a sentença.


          É chegado a hora da reeducação de alguém: em nome do pai, do filho, do espírito santo, amém.


          Nenhuma plausível argumentação sobre as qualidades de sua personalidade, sua retidão, ser um exemplar aluno, inteligente, fiel. Nenhuma virtude que pudesse amenizar a pena do crime hediondo de amar outro homem.

          Aliás, o amor é um sentimento impertinente as distorcidas imagens perversas atribuídas a homossexualidade. A razão alterada pela reação frenética da cegueira, sob o transe febril e doentio da homofobia, nos impinge a imagem de bestas acéfalas e nada mais nos resta a não ser nosso sexo mecânico num vai e vem de pistão e óleo lubrificante, cavalos de Tróia contendo doenças venéreas malignas, máquinas errantes de fazer putaria produzidos no inferno sob o rigoroso controle de qualidade do diabo.


          Suas últimas horas no convívio do que aprendeu a chamar de lar. Seu destino estava selado.


          Executou a sentença para o que entendia como inaceitável crime de perversão, a traição à promessa de continuidade de sua linhagem de exemplo de higiene moral e conduta social. Talvez desejasse matar de fato o filho. Não o fez, de fato não chegaria a tanto, não se implicaria em nenhuma atitude que o enquadrasse no código que ele bem aplica e conhece. A sentença máxima dentro dos limites da legalidade: a morte súbita do convívio do lar doce lar, orfandade obrigatória. Nenhuma possível defesa, nenhuma apelação, tramitação final, tribunal supremo.


          A expressão da dor e a tristeza desapareceram sob a frieza e a determinação de seu propósito. A beca substituída pelo capuz cônico de fino tinto reservado a dias especiais de rituais de execução de seres humanos inferiores e acesso exclusivo a membros de alta cúpula da KKK. Determinou que sua estada naquele lar e em sua vida findaria nos primeiros raios de sol da manhã, ressalvando que Alex não mais deveria tocar em seus objetos e adentrar as dependências de uso de seus pais evitando assim o risco de contaminação de doenças... Quais doenças? Chato? Herpes? Cancro? Sífilis? Aids?...ora, todas as possíveis relacionadas ao mito da promiscuidade homossexual, originárias nas dantescas orgias à meia luz e becos sujos que o pai sumariamente imaginou sua habitual freqüência.


          O sol raiou, o doutor acompanhou em silêncio os últimos passos de seu filho naquela residência até a porta de saída de seu apartamento. Foi a última vez que se viram.


          A queima roupa, disparou seu projétil, projeto de um filho des-viado. Como lhe custou caro manter por anos um ânus sem caráter, unidade familiar cara, descartada e rejeitada por defeito de fabricação. Uma afronta a seu sonho ideal de família de soldadinhos de chumbo, livre das mazelas que ele julga aceitáveis apenas nas famílias dos outros.


          Alex deixou seu lar em estado de coma. Que a sociedade o coma. Que as bichas se comam, longe.


          Sua árvore genealógica sucumbindo a ação devastadora de agrotóxicos, cupins e toda sorte de parasitas ideológicos.


          Foi acolhido por familiares com seus sinais vitais fracos. Resistia a seu desterro familiar.  Assustado e atordoado em seu leito de morte, imaginou em vão um final feliz arrebatador, esperançoso que seu pai retrocedesse e lhe trouxesse o medicamento milagroso para sua salvação. Alguma fagulha de amor, um arrependimento iluminado, formulado na saudade de momentos alegres, abraços e beijos ternos de outrora, de uma família harmoniosa e feliz.


          Por mais alguns dias viveu assim desenganado, pobre moribundo.


          Morreu definitivamente ao tentar entrar em contato com seus pais.

         
          Ouviu o derradeiro e cruel adeus. Constrangida, sua mãe transmitiu o recado para que ele jamais voltasse a telefonar para aquela residência.

          Esquecesse definitivamente a existência de seu pai, sob a vingativa ameaça de seu ex pai acionar alguns profissionais de sua cúpula de influentes e poderosos colegas para surra-lo e enfiar um cabo de vassoura no seu cu para que nunca mais possa usa-lo.


         Morreu.


        Deu continuidade a sua vida de além túmulo recomeçando sua nova vida de órfão. Não foi difícil para Alex conseguir um bom emprego. Conheceu em novos familiares o valor do respeito e tolerância, irrestrito e incondicional. Reconheceu que verdadeiros vínculos familiares não necessariamente se baseiam em vínculos sanguíneos. 


Contato com o colaborador:
falecom@ricardoorsi.com.br


Dicas Importantes
Você conhece a lei estadual 10.948 ?

No estado de São Paulo existe a lei que pune todos os tipos de discriminação homofóbica, seja nos espaços privados ou públicos, garantindo a qualquer cidadão homossexual de exercer seu direito de amar e se defender.

Conheça essa e outras leis importantes acessando a página Leis em nosso site.

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