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Cazuza - Revista Veja 26/04/89

10/07/2007
Meus heróis morreram de Aids.

         
           Fim de semana. Há pouco tinha me despedido de meu namorado Moacir e retornava para casa quando decidi estacionar o automóvel em frente a banca de jornal anexa a antiga emissora da TV Tupi e atual MTV para comprar o jornal, olhar as novidades na banca de jornal. Além do atendimento atencioso do proprietário, sempre sorridente e prestativo, sua banca vinte e quatro horas dispunha de grande variedade de revistas estrangeiras e de pequenas editoras. Um agradável hábito de terminar o sábado e despertar preguiçosamente no domingo tendo ao lado de sua cama o jornal e seus periódicos prediletos. Aquele sábado no final de abril de oitenta e nove foi diferente.

          A revista Veja circula aos domingos mais sua edição invariavelmente se encontra a disposição nas bancas de jornal a partir das ultimas horas da véspera. Naquele início de manhã de domingo, me deparei com o poeta morrendo, ficamos frente a frente por longos segundos e olhei para seus olhos dissimulando sua dor. Imediatamente entendi por que se expôs. Cazuza mostrava a sua cara, nos ensinando a perder o medo. Quando enfrentava as adversidades provocadas pelo vírus da Aids, o cantor e compositor Cazuza acabou estampado na capa da revista Veja sob o título “Uma vítima da Aids agoniza em praça pública”.

 

          Esquelético e notoriamente sucumbindo ao seu atroz destino, a reportagem chocou o país. O conteúdo da entrevista rendeu calorosa polêmica. Grupos não governamentais de apoio a soropositivos e leitores indignados com a crueldade editorial, cartas de repudio a reportagem sob a acusação de ser leviana, parcial e tendenciosa. Na reportagem, o legado de meia década da engendrada propaganda ideológica anti homossexual e a insistente mitificação do vírus HIV associado a conduta imoral de “grupos de risco”. O poeta virou poesia, seu corpo era sua arma-denúncia e recusa a morte civil. Sua coragem e seu exemplo jamais serão em vão, mesmo que ainda hoje, decorridos duas décadas, continuamos a assistir entrevistas com soropositivos tendo que esconder a face para evitar as agruras do preconceito. Ainda lemos algumas pobres reportagens citando que fulano é do “grupo de risco”, por mais que a medicina tenha abandonado há tempos este conceito, substituída pela “situação de risco”, “sexo de risco”, aquele sem as devidas precauções. Reverenciamos os que aprenderam contigo e orar para os que insistem em chafurdar na lama da pobreza da alma. O sol sumiu nas bancas de revista.

 

           A surpreendente foto de Cazuza na capa da revista Veja, senti a reação que sempre tive e sempre terei perante a um ser humano que “agoniza”: tristeza, compaixão. Lamentava sua dor, por nós todos, seres humanos, sobreviventes, vulneráveis a morte, em busca da cura das doenças que nos impinge a dor, a deficiência física, a morte e ceifam de nossas vidas os entes queridos. Tristeza não por ele ser um homossexual, como eu, mas por estar sofrendo, morrendo. Imaginava e ouvia o seu gemido aflito, acompanhando os ponteiros do relógio, o tic tac do tempo que não pára mesmo, desenganado pela expectativa de grandes novidades que o libertaria de sua gaiola. Toda a população brasileira já sabia que Cazuza padecia de Aids, mas a situação de seu estado clínico e seu definhamento físico se tornou fato público e corrente através da impactante imagem de sua dolorosa realidade impressa em quatro cores. A figura exuberante de um jovem lindo, um colorido beija-flor, foi substituída pelo semblante desfigurado pela perda de peso, depauperado pelo ataque das doenças oportunistas advindas da baixa resistência ocasionada pelo vírus da Aids. Estava comovido, aturdido, chateado, atônito, morrendo com ele. Uma pulsão de dor na alma me fez proferir, filtrada em minha timidez, um comentário inconformado –Nossa como o Cazuza está mau. Meu Deus, olha como esta o Cazuza... transtornado, buscava a Deus como meu interlocutor... Não sei se esbravejei diretamente para o atencioso proprietário da banca, ou a mim mesmo, ou aos poucos demais clientes presentes na banca naquela alta hora da madrugada. O amistoso jornaleiro avalizou o lamento e nos consolamos conversando sobre as agruras da vida, sobre os avanços da medicina. Emocionado, discorreu brevemente a sua recente e vitoriosa luta contra um câncer que por pouco conseguiu escapar, através de doses maciças de quimioterapia. Clientes entraram e clientes saíram. A edição da revista em evidência, o choque o mesmo de todos os que se defrontaram com a edição, a reação, outra. Um grupo de três amigos adentra o estabelecimento. Jovens, tão jovens quanto ao próprio Cazuza. O magrinho olhou, arregalou os olhos e alardeou para os demais. Seu companheiro magrelo proferiu seu torpedo: o Cazuza tá mal? Bem feito pra essa bicha! Quem mandou ser bichona? Tem que morrer mesmo! Todas elas! proferiu em tom firme, convicto, gerencial, literal.

 

          A paisana, homossexual invisível, ouvindo o mundo formular em cada pequena frase o armistício da alma de  batalhões de guerreiros bárbaros a proferir por tabela a minha sentença de morte. Recorrentes surras psicológicas e a necessidade de se manter calado ocasionam uma sensação de baixa estima. Redobrava minha resistência em continuar me sentindo um ser humano e não um verme a se extirpar das entranhas do corpo social. A berlinda nos proporciona uma visão desconfortável e peculiar. O desafio de concatenar, filtrar e assimilar a sentença venenosa na expectativa que as seqüelas do processo não resultem numa cirrose. Em estado de alerta para não introjectar e tornar verdadeira uma mentira dita repetidamente, não somatizar uma doença inexistente pela sugestão catedrática do erro de um médico charlatão. Quicando no fundo do mar, girando em câmera lenta sem plumo e afogando-me num vagalhão de fel, covardemente reagia de acordo com o bom senso, calado e dissimulando ser indiferente a sua ira contra meu sexo e a disposição de ser o meu carrasco. Mas era comigo. Imaginava promover um debate, interceder em nome da paz, colocar uma rosa branca no cano de sua metralhadora. Em algumas circunstâncias continuo cético quando a possibilidade de diálogo. Exercito mentalmente, como poderia ter sido a cena, como poderia ter ocorrido um inocente apelo de clemência de Edson Néri, o adestrador de cães assassinado, tentando convencer os gladiadores skinheads a poupá-lo e converte-los, sugerindo a encarar a vida sob o ângulo da tolerância e benevolência: sucumbiria sob mesmas circunstâncias, espancado até a morte, com a rosa branca enterrada no cú com cabo e espinhos. Para guerreiros perdidos no labirinto da esquizofrenia da linguagem de guerrilha urbana, a força bruta e o revide são as únicas vias para a paz, ou você mata ou morre. Acuado entre Veja-Amiga-Contigo-Istoé, ciente da impossibilidade absoluta de sobrevivência, entrefechava meus olhos com sede de vingança, voando alto no Enola Gay sedento por vingança, em direção a minha Hiroshima privada, sem pensar em rosas, para acabar de vez com o entrevero. Indignado e acuado pelo ataque incisivo e inesperado, sentia o sangue ferver. Perplexo, busquei a atenção do dono da banca canalizando minha indignação e a necessidade imediata de achar um aliado, uma esperança em acreditar que não estava sozinho no gueto com uma gang de assaltantes. Correspondeu-me com o semblante de reprovação e por alguns segundos, compartilhamos o silêncio e a neutralidade previdentes. Sua cumplicidade tênue arrastara-me à lucidez. Não estava sozinho, não estou sozinho, não estamos sozinhos.

 

           Temi por toda a humanidade. Exatamente como transcorreu o histórico do vírus nestes anos decorridos, compilava as possibilidades óbvias do vírus se proliferar em outros perfis sociais, ponderando que as características de contagio da Aids é potencialmente perigosa para todos que fazem sexo, seja qual sexo for. Igualmente perigoso e mortal para os que acreditam estarem distantes e imunes por não se enquadrarem no perfil do “grupo de risco”. Quantos já sucumbiram assim, vítimas da ignorância ...e o vírus, alheio às questiúnculas ideológicas, segue sobre terreno fértil da desinformação, concentrado em sua biológica saga em busca de novos hospedeiros, sem fazer distinção de sexo, cor e credo. Seu banquete predileto: um suculento e saudável ser humano.

Contato com o colaborador:
falecom@ricardoorsi.com.br

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