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Do autor

10/03/2007
A fórmula da segregação

         
          É um prazer relembrar a amizade e a admiração que eu tenho por um grande amigo da fase de adolescente.  Seu nome era Alcindo mas todos o conheciam por Neto. Nutríamos grande admiração e respeito um pelo outro, viajávamos juntos para a casa de seus pais em Cabo Frio, tínhamos diversos pontos de vista parecidos, sobre o mundo, sobre a sociedade, os problemas de relacionamentos familiares semelhantes. Gostávamos de praticar os mesmos esportes, o cara era um esportista nato, cracão de bola, até tentou a profissionalização seguindo seu sonho de moleque e recomendação de todos os amigos que admiravam sua técnica e habilidade em quase todos os esportes e especialmente no futebol. Neto era inteligente também, um cidadão brilhante, sorridente, solidário, carismático... Quantas virtudes eu vejo naquele velho camarada. Quantos momentos agradáveis, quanta afinidade e tamanha saudade. Meu grande amigo, eu o amava muito, o meu irmão Neto. Ainda o amo trago todo esse carinho no peito até os dias de hoje. Não, Neto não era gay. Adorava as meninas, um tipo atlético que atraia as namoradinhas que sempre o cercavam disputando a atenção daquele bom partido. Quando entrou na faculdade, não havia quem o segurava. Foi presidente da Atlética e sua popularidade junto à rapaziada fazia jus a sua camaradagem. Era um tormento aguardar uma carona de volta a casa com ele: o trajeto que separava a sala de aula da porta do seu carro que deveria ser percorrido em três minutos demorava em média quarenta, tamanha quantidade de conhecidos que entusiasmados vinham ter com ele. 

          Recordando tamanha simpatia e sua generosidade apostaria o palpite que nossa grande amizade não se abalaria, segundo os indicadores de meu radar de auto-defesa, se caso na época contasse para ele sobre minhas preferências sexuais. Mas o medo de correr esse risco era tamanho que nunca arrisquei um papo franco. Talvez, entorpecido pelo fel traumatizante do ódio do pai do vizinho, imaginava as piores reações, teatralizadas em minha mente com radicalismo extremista: empurrões, gritarias, asco, exílio. Queria poupar meu amigo deste assunto que iria desconfortá-lo... Arriscar perder alguém que se gosta tanto. Triste a insegurança em imaginar perder as conquistas maravilhosas, estreitos e duradouros laços de amizades arruinados em segundos caso saibam que você prefere transar com pessoas do mesmo sexo... Eternamente de prontidão, olhando sempre de soslaio a espera da catástrofe demolidora de um boing pilotado por um skin head alucinado varar as frágeis estruturas do seu arranha céu.

          O pânico da opressão, da exclusão, da humilhação, do preconceito é muito mais intenso quando se tem dezoito anos. Os monstrengos são mais gigantescos do que na realidade o são. As chacotas e comentários cruéis são mais recorrentes nesta faixa etária e nos obrigam a buscar refúgio lá no fundinho do armário de luz apagado e de cócoras esperando sentir o tremor das pegadas do Godzila se afastarem. 

          Conheci um cara. Um namorado. Moacir, o primeiro namoro. Como não há recompensa sem esforço, percebi a dificuldade de conciliar dentro do mesmo balaio de gatos todos aqueles que a vida nos ensina a amar, retraído, com os dedos indicadores nos ouvidos e esperando o momento do estrondo da bomba quando os gatos começassem a se estranhar.
 
          Para vivenciar a primeira grande paixão de minha vida, comecei a construir a estória de uma vida conjugal, optando em polarizar meu tempo e atenção a companhia de meu novo amor. Neguei repetidamente os convites do Neto para os divertidos passeios e reuniões com outros amigos, inventando passeios falsos e mentiras para quem jamais menti. Sempre detestei mentir seja qual for o motivo. Ficava chateado em imaginar um afastamento progressivo e forçado de alguém que é como um irmão. Como nos clichês dos filmes de ficção científica em que a corda do astronauta se rompe, olhava triste o lento afastamento de meu parceiro de viagens, vital co-piloto da minha vida social rumo a morte de nossa amizade.
 
           Inconformado, na tentativa de unir os mundos diferentes que iam se incorporando ao meu dia a dia e amenizar a ausência de um ou de outro, ousei apresenta-los, mesmo percebendo o alto risco da situação. Sentia a possibilidade de uma possível harmonia, sabia que poderia ser uma maneira obliqua de tentar “falar” para o Neto. Deixei a cargo de sua percepção captar nossas diferenças, deixando para ele a opção de se afastar gradualmente ou de um dia pro outro. 
          Conforme imaginei, a reação da maioria de meus amigos héteros e do próprio Netão perante aquela amizade peculiar e facinha-facinha de entender foi absolutamente dócil. A situação sem conflitos e confrontos diretos. Aliás, foi surpreendentemente conciliável. E cada vez mais me senti seguro pela evidência de um caminho viável e plausível de comungar minha realidade com meus amigos próximos, dando suporte ao choque de um ou outro comentário atravessado ou mesmo quando algum babaca que adorava tocar na ferida inquisitorialmente com a cara ameaçadora de reprovação: - E ae cara, esse tal de Moacir é meio viado, né, cara... Acho que seria mais fácil se ele perguntasse se eu sou viado observando todas as conseqüentes conclusões implícitas em nossa forte ligação...Seria mais cômodo responder por mim do que falar da sexualidade alheia, como uma fofoqueira. Foi uma experiência positiva juntar aqueles mundos, experimentar a aceitação... Jogávamos baralho, ríamos e tudo ficou possível naquela primeira fase. Eu estava fazendo minhas apostas esperando para ver que tipo de porrada o mundo poderia me dar e como reagiria a elas. O duro mesmo era explicar porque o fim de semana resolvia ficar com o Moacir, fazer o programa somente com o Moacir e deixar o Neto sem ao menos um convite como era antes. Durante anos, aos sábados jogávamos futebol na quadra dos médicos do Hospital das Clínicas e como era difícil responder a fatídica pergunta: - E aí Ricardo, que você vai fazer depois do jogo? A pergunta mais amável que uma pessoa pode fazer a outra, a chave da cumplicidade de querer escalar a companhia do amigo para preencher a solidão, passar o tempo. E doía: -Poxa, cara, infelizmente tenho um compromisso blá blá blá blá...e nunca estender o convite a ele...

          Nesta primeira etapa de saída do casulo da solidão, compreendi aliviado que apesar dos perigos do mundo, cheio de filhos da puta, há pessoas boas também. 

          A fase terminal da amizade com meu estimado cracão bom de bola e sorridente Neto aconteceu quando eu e Moacir fomos conhecendo novos amigos gays e criando com eles nosso núcleo de interesses afins, onde podíamos contar um para o outro nossos casos, nossas angústias, nossos namoros, nossos tesões, rir, rir muito e fazer exatamente como toda a roda de amigos adolescentes: falar sobre sexo. Mais do que uma reunião corriqueira de amigos, percebia em mim e em alguns colegas muito mais tímidos e retraídos que aqueles almoços dominicais super engraçados serviam como salutar terapia. Relaxávamos, aliviados vendo nossa própria imagem uns nos outros e descobríamos que monstros mesmo são os que semeiam o ódio no coração sem motivo cabível.

          Ali nunca imaginei levar o meu amigo Neto. Não que não pudesse ou fosse proibido, somente muito mais tarde fui conhecendo heterossexuais que não se importavam em participar de nossas vidas, aceitando e entendendo um beijo, um abraço de namorados como qualquer outro casal, como qualquer outro grupo de amigos...e lamento ter que informar aos que nunca imaginaram a realidade de uma sociedade homossexual que ao menos nos diversos grupos que participei, nunca ouve uma orgia, nenhuma suruba regada a velas vermelhas entre penumbra e brumas, sacrifícios de animais, homens que repentinamente pudessem tranloucadamente sucumbir a uma necessidade oculta e irresistível  de se travestir,  nenhuma evocação do capeta. Nem ao menos fui convidado pra nenhum encontro parecido... As insanidades e esquisitices residem mais na mente de quem não conhece do que na prática. Para não dizer que nunca fui numa festa com bizarrices, fui ao aniversário do Gilberto onde lá estavam alguns travestis, amigos do aniversariante. O curioso destas festas com um tempero de escracho é que na realidade os travestis estão muito mais preocupados em fazerem graça, arrancarem o riso da rapaziada do que intencionar um assédio qualquer. No final parece mais uma festa carnavalesca a fantasia ou um show de comediantes de terceira do que um ambiente sexualizado. Muito mais para uma versão maliciosa e sem censura da “A praça é nossa” do que um filme de sexo explícito. 

          E assim se(x)cionamos  nossas vidas ao meio criando nossas alfândegas sociais e culturais, por pânico das represálias ao espelho de quem somos, transitando entre nossos países com passaportes falsificados. Parimos nosso agente secreto de nós mesmos, a outra "face de nossa personalidade", que em algum ponto de nosso futuro vai causar tanto espanto aos desavisados. Assim vamos fazendo de nós mesmos um mistério, nossos códigos cor de rosa, nossos dark roons sociais, onde só é permitido a entrada de gays. Presos em nossas confrarias fechadas, alimentando a imaginação deturpada de uma grande parcela da população que se deleita sadicamente em associar a imagem do homossexual a pecado e cheiro de inferno. E assim, escondidinhos lá no armário pra ninguém ver, só ouvimos o barulho dos grunhidos dos dinossauros homofóbicos famintos, saciando suas voracidades com as espalhafatosas presas fáceis como os travestis e afeminados, salvaguardando-nos sem saber por quanto tempo, com nossas camuflagens naturalmente masculinas.

          Pelo mesmo caminho, vamos nos afastando de nossos familiares também, compartilhando com eles apenas o nosso silêncio necessário, o arroz com feijão. A cumplicidade, os momentos bons e ruins e mais importantes de nossas vidas, compartilhamos com nossos espelhos e confidentes, nossos amigos gays. Parentes por elos de afinidades e rejeições.

           Reguei com o veneno do inseparável medo, a amizade de um dos homens que provavelmente seria hoje um grande irmão presente em minha vida, um compadre, um inventário vivo de como a vida pode ser abençoada e não uma saudosa memória de uma amizade negligenciada. Fui cada vez mais negando o contato com o Neto, me esquivando com dor e lamento...As visitas cada vez mais espaçadas e a tristeza de ouvir de seus lábios que não ia me convidar mais para os passeios, pois eu nunca topava mais nada. Como consolo por toda essa ausência de anos a fio, fico imaginando que a vida possa ser como uma película cortada de um filme inacabado, mas que se um dia remendada retome, como antes, todas as histórias e imagens lindas ali contidas, esperando apenas um bom diretor que apronte um final feliz.

          Talvez esse conto seja o convite a um grande reencontro e o reinício de uma grande amizade que nunca morreu, apenas nos distanciamos em tempos de guerra. Guerra fria, a qual nem sabíamos estar inseridos em uma, que vamos acabar com o aprendizado da tolerância.

Contato com o colaborador:
falecom@ricardoorsi.com.br


Dicas Importantes
Você conhece a lei estadual 10.948 ?

No estado de São Paulo existe a lei que pune todos os tipos de discriminação homofóbica, seja nos espaços privados ou públicos, garantindo a qualquer cidadão homossexual de exercer seu direito de amar e se defender.

Conheça essa e outras leis importantes acessando a página Leis em nosso site.

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